sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Macho solteiro

Essa é pra quem costuma sair à noite, principalmente no meio da semana...

Acordo. Ou melhor, sou retirado de um turbilhão confuso de pensamentos
e lembranças que precisariam de mais umas quatro horas para que fossem
chamados de sono pelo blá blá blá longínquo de um locutor de rádio que
saía do rádio-relógio mal sintonizado.

Entre isto e acordar há um abismo de diferença. Sento na cama.
Imediatamente o quarto dá uma volta completa em torno do que restou do
meu fígado e eu lembro que estou de ressaca.

O giro do quarto somado à sensação de que estou vestindo uma meia de
algodão na língua estimulam o meu primeiro pensamento lúcido do dia, e
talvez um dos únicos: puta-que-pariu.

Depois de deitar e levantar umas 10 vezes, em uma dúvida cruel entre
pedir demissão para dormir mais um pouco e chegar até o chuveiro para
salvar o meu emprego, decido manter-me no mercado de trabalho e vou
cambaleando até o banheiro.

Faço uma parada no corredor e tomo 750 ml de água no bico da garrafa
térmica. Os 250 ml restantes escorrem pelos cantos da boca molhando a
minha camiseta fedendo fumaça.

Chego até o espelho do banheiro, vejo o meu reflexo com um misto de
pena e uma expressão do tipo depois-eu-converso-com-você-mocinho.
Dou aquela checada no pânceps -- aquele músculo logo abaixo do
abdômen, mas nem me dou o trabalho de encolhê-lo. Preguiçosamente
começo a escovar os dentes.

A secura da desidratação alcoólica molhada pela água há pouco ingerida
formaram uma gosma espessa de cuspe que em contato com a pasta de
dentes começa a produzir uma quantidade inominável de espuma na minha
boca.
Depois de quase engasgar, entro no chuveiro determinado a tomar um banho gelado.

Mas ainda não foi desta vez. Eu tenho alguns pensamentos recorrentes
quando estou de ressaca, como a obrigação auto-impingida de tomar um
banho frio, parar de fumar pelas próximas três semanas, e outras mais
comuns.

É claro que, como toda promessa de ressaca, no dia seguinte você está
fazendo tudo de novo.Mas uma coisa que eu nunca consegui foi tomar
banho gelado para curar bebedeira. Claro que não estou contando aquele
banho de roupa que sua mãe(tua avó, ou tia, ou namorada, ou irmão) te
deu quando você tomou o primeiro fogo.

Ah! O primeiro porre! Este passaporte de entrada para um universo que
começa em euforia, termina em arrependimento e tem uma complicada
contabilidade de horas de sono no meio.

Este universo com o qual você vai conviver durante toda a sua vida
adulta, só saindo dele através de um SIM proferido em uma igreja,
templo,
mesquita, ou qualquer que seja o foro apropriado da sua religião. E olhe lá!
Este universo que você só vai perceber quando for tarde demais,
consome todo aquele dinheiro do plano de previdência privada que você
nunca fez, apesar das constantes investidas da sua gerente do banco.

O universo do macho solteiro.

Quando volto a mim, ainda estou debaixo do chuveiro com os olhos fixos
em nada, divagando sobre estas e mais uma porção de outras bobagens.
Recomeço a função mecânica matinal, um tanto prejudicada por um
conflito inequívoco de hardware.

Ao lavar os olhos, só consigo deixá-los mais vermelhos, já que com tão
poucas horas de sono o corpo nem deu tempo de produzir remela
suficiente.

No meio do banho, eu olho para ele. Ele quem? Ele, oras. O seu
companheiro que neste momento está encolhido, ensopado, sujo e
mal-humorado (sim,ele tem humor!). E aí você começa a lembrar da noite
anterior.

E aí começam os seus problemas.

A coreografia de 'Ganso do Sargentelli' que você fez para as amigas da
sua prima. Aquela hora que você acreditou piamente que era o cara mais
bonito do lugar e ficou trocando olhares com todas as mulheres, você
de sedução,elas,de desprezo ou piedade.

Aquele beijo que você tentou arrancar a força da garota mais feia do
lugar, e não conseguiu.

E finalmente, aquele momento em que você se tornou milionário, pediu
uma garrafa de Taittinger para brincar de pódio de Fórmula 1 (cantando
tã tã tã!) e encerrou a noite deixando o restante do seu salário em um
prostíbulo de luxo, não sem antes tentar sexo gratuito com todas as
'amigas' da casa (afinal de contas você ainda era o cara mais tesudo
da cidade).

Daí para frente, só o que você vai sentir ao longo do dia são pequenas
dores, morais e físicas, causadas pela noite anterior.

A taquicardia provocada pela quantidade paquidérmica de energéticos
que você ingeriu, o telefonema da sua gerente do banco dizendo que só
aumenta o seu já estourado limite se você fizer o tal do plano de
previdência, uma vontade incrível de ir ao banheiro soltar aquele
barro que você segura porque não há bidet no escritório e você também
não quer interditar o toalete, e o maço de cigarros todo úmido e
amassado que você insiste em manter no bolso mesmo que jure para si
mesmo que vai parar de fumar até que, depois de fingir que trabalhava
o dia inteiro, chega o final do expediente, toca o telefone e você
ouve aquela voz familiar:

- Faaaaaala, seu mééééééérda! Onde é a cachaçada hoje???!?
Pronto. Começou tudo de novo.'

PS: fiquei com preguiça de editar os palavrões. Culpa do Gustavo, que me enviou assim.

3 comentários:

Sandro Ian disse...

auhhauhuauahuauha
Tirando a parte do cigarro, tenho um amigo de um primo do cunhado do meu vizinho que já passou por isto... huauhauhahuahua
Ótimo texto...
Parabéns tia Gi...

Яoьεяτα disse...

Claro Sandro, é sempre um amigo, um primo, o papai noel, blá blá blá

rs

hardy disse...

Esse kara me seguiu!!! kkkkk

 
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